Precisamos falar sobre Kevin – Filme

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Livro de Lionel Shriver,” Precisamos falar sobre o Kevin’’ baseado nos diversos psicopatas que organizaram chacinas em escolas,  inspirou Lynne Ramsay a produzir uma das tramas mais complexas do cinema, em relação a dinâmica familiar onde o filho é criado sem vínculo afetivo. O filme é complexo, no inicio é confuso,  por causa dos flashbacks.

Eva é a mãe de Kevin, que no momento da gravidez tinha seus instintos maternos voltados para a sua própria liberdade e sua paixão por viagens, neste caso a gravidez foi vista como um castigo.

Eva, se apresenta sempre isolada  num estado de NORMOPATIA “retrata um certo tipo de indivíduo que aparentemente é adaptado sem conflito psíquico ruidoso, seja neurótico, seja psicótico, porém com dificuldades de mergulhar em seu mundo interno, o sujeito perde o contato consigo mesmo e passa a funcionar como um robô”(Ferraz F.C. 2002).

Durante todo o filme a presença constante do vermelho traz em cada momento um significado diferente, dando o sentido  ambivalente de prazer e violência, vida e morte, amor e ódio. No inicio o vermelho aparece na festa do tomate na Espanha, dando o sentido de liberdade, assim como aparece também no dia do crime dando o sentido de amor e ódio, vida e morte. Eva tenta constantemente limpar o vermelho das tintas na parede de sua casa,  que  remete a uma tentativa de aliviar seu sentimento de CULPA, pelo sangue das outras crianças, quando sai na rua é hostilizada pelos vizinhos e aceita essas humilhações, sente culpa e remorso pelo ato cometido por seu filho, sente que é merecedora de todo o sofrimento ao qual é submetida.

O filme dá a entender que Eva passou por depressão pós parto, mas seria esse o motivo de não ter conseguido criar vinculo com seu filho?  O desenvolvimento de Kevin não é satisfatório para a sua idade, a mãe chega a suspeitar de autismo, percebemos durante o filme que Kevin não recebia estímulos o que afetou o seu desenvolvimento, tanto da fala, como de seus braços e pernas que eram flácidos, sem tónus muscular, também era uma criança sem empatia, sem interação e olhar sempre distante, desde pequeno sua comunicação com sua mãe era falha, chorava muito e não era acalentado pela mãe, o que nos leva ao conceito Winnicottiano sobre o holding  responsável pela construção psíquica da criança, porém  se acalmava na presença do pai que era amoroso e paciente e também ausente na maior parte do tempo. Como poderia ele sentir ou interagir se isso lhe foi privado desde os primórdios de vida. Outro atraso de Kevin se mostra no controle dos esfíncteres, usa o coco de forma punitiva, precisava sempre punir essa mãe pelos danos psíquicos que lhe causara.

Eva deixou seus sonhos de lado e se torna uma escritora de roteiros de viagem, organiza um escritório dentro de sua própria casa, onde Kevin resolve jogar tintas destruindo a parede organizada pela mãe. O filme passa nesse contexto o filho sempre tentando chamar a atenção da mãe, como pedido de carinho e amor, amor este sempre ausente nessa relação mãe e filho.

Com a segunda gravidez, Eva consegue vivenciar a maternidade, se organiza nos cuidados necessários para o  desenvolvimento saudável tanto psíquico quanto físico de sua filha, despertando em Kevin um ciúmes destrutivo, que foi prejudicial a sua irmã.

Um estranho vínculo se instala,  a partir do dia em que Kevin  provoca sua mãe que acaba  quebrando o seu braço, ele utiliza esse incidente para manipular sua mãe, tirando sua autoridade, a colocando diante dele de forma vulnerável, a cicatriz em seu braço fica carregada de culpa e proteção.

O papel do pai é representado por muito carinho, porem com ausência constante, não impõe limites a Kevin,  que acaba colocando o de forma desprotegida junto aos seus intensos impulsos destrutivos, sendo ele mesmo o pai que o presenteia com a arma que será utilizada no ataque, inclusive a ele mesmo. São esses famosos “limites” sempre apresentados de forma didática aos cuidadores  e que são transmitidos aos filhos durante seu desenvolvimento que vai construir um indivíduo com valores morais, levando a reflexão do que é certo/errado do que é permitido/proibido, sem esses valores morais o indivíduo fica vulnerável aos seus instintos primitivos. Ao completar 16 anos podemos ver um adolescente com graves transtorno de conduta.

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Várias cenas chocam aqueles que assistem ao filme, porém uma deve ser citada; no ginásio após o massacre, mostra que o importante ali não eram os crimes, nem a dor, mas sim os GRITOS que ao ouvi-los Kevin se curva e agradece, como se os seus próprios gritos infantis agora pudessem ser ouvidos pela mãe, fica visível sua satisfação quando no momento da prisão olha para sua mãe de forma fria e esboça um leve sorriso, como um sinal de vitória. Mesmo depois de tudo que aconteceu Eva continua presa ao seu próprio mundo, a dor intensa é contida, dando inicio a uma fuga de si mesma.

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Este filme quebra alguns tabus, como a mãe que deve amar incondicionalmente seu filho, ele mostra que nem toda  mãe ama o seu filho incondicionalmente desde o nascimento, os pais não nascem sabendo serem pais, é uma relação que vai se construindo desde a concepção, e juntos vão se descobrindo como pais e filhos, sem a permissão do filho impossível nascer uma mãe ou um pai, é uma relação de entrega e aceitação. Outro tabu, seria de que todas as histórias possuem um final feliz.

Filme disponível na Netflix, ou pelo computador no link abaixo:

Fonte: Ferraz, F.C. Normopatia, Clínica Psicanalítica, casa do psicólogo, 2002. p.22

Texto adaptado de Eduardo J.S. Honorato e Denise Deschamps (psicanalistas)

9 Comments

  1. Pela minha interpretação, Kevin nunca se deu com a mãe, quando era um bebê não aceitava os carinhos da mãe quando ela ninava ele, chorava escandalosamente até o pai aparecer e ele se acalmar. Ao longo do filme, a mãe tentou de varias formas fortalecer os vinculos, mas o garoto recuava sempre. Logo não creio que ele queria a atenção da mãe, muito pelo contrario, ele queria apenas chocá-la.

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    1. Isso mesmo Claudia, ele não aceitava o carinho da mãe, por não ser adequado, ela balançava ele no alto e ria para ele, não colocava no peito (não no sentido de seio, mas de aconchego), ela queria acalmá-lo mas não sabia como, lembra da parte em que ela leva o berço até uma obra na tentativa de conter o choro, e ele chorava cada vez mais? O vínculo que se estabelece com o bebê é primordial para as próximas fases , em alguns casos existe um prejuízo que é difícil de ser reparado.

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      1. Sim, concordo com você que a mãe não pode ser culpada por todos os comportamentos de Kevin, porem ouve algumas falhas da mãe em estabelecer um vinculo adequado com seu filho.
        obrigada e continue navegando pelo Blog.

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    1. Bem observado Saulo, a autora utilizou os vários casos sobre tragédias em escolas para compor a estrutura familiar de uma pessoa com características para realizar esses atos de crueldade, não havia reparado na escrita vou arrumar. abç

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