O que significou, a carta de adeus …

 

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Escrito por: Rosana Angelo Ribeiro – Psicóloga Clínica

A literatura sobre suicídio é bastante abrangente, existem cartilhas do Ministério da Saúde,  para os profissionais da área em como lidar com pacientes suicidas, como também para a mídia em como transmitir essas noticias, a preocupação com este tema tem se tornado constante, devido ao aumento de tentativas de suicídios.

A psicologia clínica, se preocupa em compreender a dor psíquica que levou este indivíduo a tentar contra sua própria vida, com a finalidade de obter uma atuação mais eficaz na pós-crise, desenvolvendo um acompanhamento psicológico  neste período.

Alguns hospitais possuem um atendimento mais amplo para os casos de tentativa de suicídio mal sucedida, porem a maior parte dos hospitais ainda tratam apenas do dano causado ao corpo e após a recuperação o paciente retorna para sua casa, mesmo tendo o conhecimento de que aquela pessoa pode realizar outra tentativa contra a sua vida.

Segundo estudos, três causas apontam para o suicídio, a) pelo orgânico , representadas pelas doenças endógenas. b) pelo emocional. c) por causas filosóficas, motivadas por razões que o praticante entende por nobre. Leia mais em: (Fatores que contribuem para Transtorno Depressivo)

FREUD em sua obra “Luto e Melancolia”procura mostrar que a agressão do indivíduo externa pode se voltar para ele mesmo, para melhor compreensão vamos observar essas diferenças, no luto normal aonde o indivíduo aceita a perda, fica livre emocionalmente para investir em outros objetos “entende-se por objeto pessoas, relacionamentos, o mundo acerca do indivíduo” No processo de melancolia/depressão “luto patológico” o indivíduo se sente abandonado esse abandono pode ser real ou imaginário, não consegue seguir sua vida, fazendo com que se volte para ele mesmo, volta seu potencial agressivo contra ele próprio, podendo destruir-se por inteiro.

MENNINGER cita: “em lugar de combater seus inimigos, tais pessoas combatem e destroem a si próprio, assim o suicídio é um homicídio, onde o indivíduo que mata é também a própria vitima “(Dias, M.L. pg.23)

O suicídio na antiguidade sempre foi punido severamente, em Tebas o morto era privado de funerais.  Em Atenas no seculo IV cortava-se a mão daquele que cometera suicídio para que ele não pudesse retornar e assassinar os vivos. Em Roma as pessoas que se enforcassem eram privadas de sepultura. Em Zurique o corpo do suicida era punido no local do ato, por exemplo caso tivesse se afogado num poço seu corpo ficaria próximo do local com pedras, uma na cabeça, outra no corpo e outra no pé.

A partir do século XVI e XVII com a Revolução Francesa a sociedade e a igreja se tornaram mais tolerantes com o suicida.  Esta desaprovação pela sociedade ao suicídio seria uma forma de tentar reduzir esses atos, porem sabe-se que esta desaprovação leva a outra questão importante que seria a de não se falar sobre o assunto, tornando isso um tabu, impossibilitando das pessoas falarem sobre o que pensam ou sentem sobre esse assunto, sabemos que quando não expomos nossos sentimentos e os introjetamos, leva o indivíduo a um estado de isolamento, que pode se tornar patológico.

A interpretação das cartas de adeus

O material analisado tinha por base interpretar a intencionalidade por traz do discurso deixado, a base teórica está voltada para uma analise social, mostrando o dialogo que o suicida estabelece com as outras pessoas da sua vida no momento em que decide morrer. Toda sociedade reproduz dentro do indivíduo a sua cultura, suas normas, seus modos de organizar as experiências e de manipular e recriar um imaginário.

O suicídio no imaginário simbólico do suicida não tem haver com a morte, como uma extinção da vida, a morte representa uma passagem uma entrada para outro estado também vivo. Está linguagem simbólica foi fruto da análise das cartas deixadas pelos suicidas como despedida dos entes queridos, veja algumas destas afirmações.

(…) Ao seu lado estou certo que caminharei paralela à vida que transbordaram tanto em você.

(…) Eu vou me embora, porque eu não posso passar vergonha

Para onde vão estas pessoas?    Nas cartas observa-se um desejo de perpetuação, de seguir para outro lugar aonde se adiciona esta nova etapa da vida, o indivíduo realmente deseja morrer, mas deseja se transportar para outro tipo de existência. Getúlio Vargas ao se matar deixou escrito “Saio da vida para entrar na história.”

(…) Talvez o tempo destrua esta carta mas não destruirá o que sinto. Eu te amo mãe. Só você conhece toda a historia sobre eu e o M. mas nem é toda. Uma história que não teve fim. Em carta a M. : Como eu o amo ! Ainda estarei te amando! Por toda a eternidade.

A pessoa quando se despede ela fala do lado do mundo dos mortos, mas com a fantasia de que está vivo, interferindo nos relacionamentos que tinham em vida, com o poder do mundo dos mortos, as cartas analisadas trazem a perspectiva de que a vida é vista como má, e a morte como um atributo dos bons.

(…) Estou aqui para dizer-lhes que nada mais importa para mim. Para mim tudo se acabou. Eu sinto muito, mas tudo o que eu queria era ser feliz, nada mais. Por favor eu quero que todos me compreendam…, eu lutei muito nessa vida, mas nada adiantou, porque a felicidade é uma só, eu não consegui encontra-la, mas tudo bem eu estou partindo, e creio que encontrarei. Isso é importante para mim demais, compreendam-me por favor (…) mas tudo o que eu queria, era ser feliz, pois não consegui e agora eu tenho que partir (…) Eu sinto partir, mas é o único jeito, compreenda… eu não posso continuar assim (…)

Alguns esperam continuar vivo após a morte e resolver problemas pendentes, como financeiro, mas quem desfrutaria desta situação seria a família e não ele.

(…) tenho um seguro no Bradesco (…) pague o que eu devo.

A religião difunde um estilo de pensamento dualista , céu x inferno, bom x mau, indivíduo puro x indivíduo pecador …, assim o suicida prefere a vida sagrada ao lado dos mortos, onde ganha poderes ao lado deste mundo imaginário, nesta dualidade entre o ser bom e o ser mal, existe o poder divino de Deus, os religiosos esperam encontrar na morte poder sobre os vivos, torna-se deuses auxiliares, julgam, projetam, e punem os pecadores no mundo dos vivo.

(…) Quero a sua felicidade, sinceramente, mas insisto em dizer que você é covarde, pois não cumpriu o provérbio que dizia “o que Deus une, nada separa“. Judiou muito de uma pessoa que viveu 22 anos do seu lado (…) muito cuidado, pois a sua tentativa de enganar o mundo não durará eternamente! (carta ao pai)

Os mais rebeldes resolvem desafiar o grande pai: (…) e que eu não seja enterrado em solo sagrado, e que nenhum sacristão faça tocar o sino (…) Não quero missa e que só avisem meus irmãos. 

O medo do desconhecido o medo do inesperado, incontrolável, faz com que a pessoa tome decisões que a coloca numa posição mais confortável, de controle sobre o inevitável: a morte.

O suicida não busca a morte, ele busca a vida, uma vida imaginária, ele possui um grande potencial para a vida, porem não consegue administrar ao seu favor, quer viver em outra dimensão, onde poderá realizar os seus desejos que em vida não pode. Por vezes a pessoa sente como se estivesse vivendo o inferno enquanto as outras pessoas estão cobertas por momentos felizes.

Quando a pessoa quer transferir sua mágoa, fazer com que o outro se sinta culpado por sua decisão, age como na lei do talião, olho por olho, dente por dente, a rejeição e o abandono é pago com rejeição e abandono, a separação é paga com separação, o desamor com desamor, cada individuo tem sua forma de dizer o que sente no momento da despedida. Por exemplo:

Uma senhora magoada e com raiva dos filhos, planeja se matar após a visita dos filhos, assim na próxima visita daqui a 12 meses quando encontrarem o seu corpo, poderão ver o quando foram negligentes e ausentes, assim através da auto agressão o indivíduo deseja agredir ao outro ou a sociedade.

O sofrimento da pessoa suicida é inquestionável, ela pode demonstrar esse sofrimento de várias maneiras, seja pelo lugar escolhido para dar fim a sua vida, seja por meio de cartas que mesmo meio desconexas trazem a mensagem subjetiva do seu ato de adeus.

Fonte: Dias M.L. Suicídio testemunhos de adeus, ed.brasiliense, 280p.

 

 

 

 

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