Já estou com saudades.

Por: Rosana Angelo Ribeiro – Psicóloga Clínica

Já estou com saudades é um filme que chama a atenção, por se tratar de um tema muito delicado que é o câncer de mama, seguida da retirada das mamas (mastectomia). O enredo se passa dentro de uma harmonia entre a dor e o sofrimento, a amizade e o amor. Com pitadas de bom humor  que funcionam como pequenas “pausas” nesse processo de luto.

O filme mostra com clareza toda a temática que envolve o câncer de mama e a mastectomia, foi proposto dentro de uma realidade extrema, algumas cenas chocam os olhos.

As personagens centrais são Milly e Jess amigas inseparáveis, desde muito pequenas as duas sempre fizeram tudo juntas. Por uma atitude inconsequente de Milly ela engravida e se casa com um cantor de banda, que na época vivia momentos de rebeldia, mas com o nascimento da filha e do casamento se tornou um pai amoroso e companheiro, assim veio o segundo filho e a família ficou completa. Ambos bem sucedidos profissionalmente.

Jess, optou por uma vida mais simples, não conseguiu engravidar, fez várias tentativas através da tabela da fertilidade, porém optou por inseminação artificial, seu marido trabalha em dois empregos para realizar o sonho de ser pai.

Milly não fazia os exames de rotina, quando foi ao médico e recebeu a notícia de que precisava iniciar a quimioterapia o mais rápido possível.

Falar com a família sobre o câncer de mama 

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O filme mostra que Milly  ficou insegura e com medo, leu um livro sobre como poderia abordar esse assunto com sua família. Depois de uma semana contou para seu marido, diante do impacto ambos experimentam uma explosão de emoções com choros e risos ao mesmo mesmo, a psicologia diz que nesses momentos de grande impacto experimentamos emoções como sofrimento, medo, raiva, angustia e ansiedade, ao final Milly segura forte o braço de seu marido buscando por apoio. Por reconhecer o impacto desta noticia para seus filhos pequenos, fez uma apresentação com desenhos animados e de forma bem lúdica  contou uma historinha sobre a quimioterapia, ela transformou algo ruim numa coisa muito boa, talvez tenha exagerado um pouco porque passou a impressão para seus filhos de que aquilo era muito bom, tanto que eles queriam fazer quimioterapia também.  Somente neste momento percebeu que talvez aquela forma não foi a mais correta.

A dificuldade em dar a notícia para a família, é aceitável devido ao próprio estigma da doença câncer, todos sabem que será um momento em que exigirá muitas mudanças, e essas mudanças não são conhecidas e entrar neste universo desconhecido assusta a todos os envolvidos, a doença e suas consequências  será apresentado para a família e paciente de forma abrupta.

Momento em que precisa cortar o cabelo 

No filme esse momento é abordado com muita delicadeza, consegue transmitir o quanto é difícil para a família. Milly com sua vaidade desde o começo não conseguia se imaginar careca, esse é um ponto importante no filme, mostra que ela aceitou o tratamento, desta maneira consegue lidar com a vergonha dos filhos em relação a sua nova aparência.

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O cabelo é a representação externa de como as pessoas nos vêem, através da aparência física. A forma de lidar com a queda do cabelo está relacionada a fatores psicológicos internos de cada mulher. Para a sociedade é a expressão da feminilidade. A perda do cabelo neste processo de quimioterapia é momentânea, eles crescem novamente e a maneira de lidar com esta situação é única, cada mulher reage de maneira diferente.

Apoio da família

O filme aborda uma família bem estruturada financeiramente, porém emocionalmente instável, a mãe de Milly considera outras prioridades e se ausenta nos cuidados com a filha. Seu marido não compreende o quanto sua esposa está fragilizada e não coopera com as atividades rotineiras que antes estavam na responsabilidade de Milly. Jess é a única que compreende a necessidade de um apoio e abandona temporariamente seu marido e sua casa para cuidar e ajudar sua amiga.

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Neste processo o paciente vai precisar de todo o apoio possível, não somente psicológico como também para o acompanhamento no tratamento, cuidados da sua alimentação, cuidado dos curativos feitos em casa. A solidariedade dos amigos e parentes precisa ser um ato constante até a recuperação completa do paciente.

O paciente que antes ocupava uma posição no seu meio social se vê numa mudança de papeis, essa mudança de papel pode ser mais radical a medida em que a doença avança e seu grau de sofrimento se intensifica, neste processo a demanda da família também aumenta. Os profissionais envolvidos acompanham o impacto da doença para o paciente como também para a sua família, que será diferente para cada núcleo familiar porque envolvem alguns fatores como fatores emocionais, socioeconômicos e culturais.

A retirada dos seios (mastectomia)

 A retirada dos seios traz algumas mudanças em como a mulher se vê, sua autoimagem, sua autoestima e o comprometimento da sua sexualidade, são afetados. Os seios dentro de um simbolismo representam a feminilidade, a sexualidade e a maternidade, com a mastectomia a mulher se sente envergonhada, mutilada e sexualmente repulsiva.

O sentimento de vergonha de inadequação e culpa surgem neste período. O relacionamento conjugal, quando existe é considerado um fator importante para a reestruturação da integridade da mulher, que nesse período se sente diminuída da sua feminilidade, atratividade e sexualidade, esse apoio também será responsável pelo retorno do  interesse sexual numa fase mais tranqüila da doença.

A mulher também exerce um papel muito importante no relacionamento sexual do casal, ela precisa se tornar mais receptiva para o contato fisico. Quando este companheiro não consegue dar o apoio que sua companheira precisa, ela entende como uma agressão nesse momento em que está fragilizada.

O filme mostra essa fragilidade no casamento após a cirurgia, retrata também o papel da mulher neste retorno conjugal. Milly se agarrou ao papel de vitima, o seu egoísmo não permitia que compreendesse a dificuldade de seu marido nesse processo de readaptação.

Morte Iminente

Milly precisa passar por mais uma fase; a morte anunciada, isso faz com que repense alguns valores, e se torna uma pessoa mais acessível, procura se resolver com as pessoas a quem se mostrou egoísta, principalmente com sua amiga Jess.

O filme aborda um tema muito importante, os cuidados e as questões que precisam ser resolvidas antes de  morrer. A aceitação diante de algo que é irreverssível, fez com que Milly tivesse mais cuidado  e carinho ao falar com seus filhos sobre os próximos anos em que ela não mais estaria com eles.

O morrer faz parte da condição humana, e quando alguém que conhecemos está com uma doença terminal, a nossa reação frente a essa doença, se dá por meio de como entendemos esse processo e como vemos a doença com todos os seus estigmas e preconceitos, alguns chegam a se afastar por não querer ser contagiado por essa doença, mesmo não sendo infectocontagiosa.

Considerações

Estamos diante de uma doença que está aumentando cada vez mais, infelizmente a divulgação não é suficiente para sua exterminação, este filme é bem abrangente, mostra todos os aspectos tanto emocionais, financeiros, abandono, egoísmo do paciente, altruísmo da amiga e a dificuldade em falar sobre o assunto que esteve presente durante todo o filme.

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Existem vários outras observações, que se quiser pode comentar e vamos ampliar essa resenha.

 

Fontes: Angerami, V.D., Trucharte F.A.R. Psicologia Hospitalar, 2 ed. Cegame, 2010. 108pg.

http://www.tuasaude.com. mastectomia

http://www.oncoguia.org.br. conteudo/como-lidar-com-a-perda-dos-cabelos/189/21/.

O apoio de familiares e amigos na recuperação dos pacientes com câncer .www.inca.gov.br. releases/press_release_view_arq.asp?ID=1262

Carvalho, C.S.U.  Atenção à Família do Paciente Oncológico Revista Brasileira de Cancerologia 2008; 96p.

 

Raquel Ayres de Almeida Impacto da mastectomia na vida da mulher . ed. SBPH v.9 n.2 Rio de Janeiro dez. 2006

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